quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Cuidado: o Autor Desconhecido ataca!!!

Confesso que costumo me irritar quando vejo artigos de jornais locais sendo “chupados” para publicação em boletins informativos de certas empresas. Parece até que os seus leitores não tem o hábito de abrir os diários para conferir o conteúdo dos mesmos. Inclusive cheguei a flagrar um editorial num órgão ligado à Responsabilidade Social reproduzindo, sem tirar nem por, todo um texto que circulava banalizado através da Internet. Em meu serviço, sugeri e consegui que se fizesse, fora do expediente, uma oficina para elaboração de veículo jornalístico com a finalidade de ser produzida matéria da própria lavra dos funcionários. ***************************************************
É claro que se obtiveram ótimos textos com essa iniciativa, porém, não me dava por satisfeito ao constatar a timidez de alguns de seus autores quando se escondiam através do recurso do pseudônimo ou então concedendo apenas as iniciais de seus nomes. Entendia essa atitude como uma forma de se defenderem das críticas para evitar polêmicas desnecessárias. Isto que os assuntos tratados eram os mais diversos possíveis, sem envolver qualquer ofensa pessoal. Portanto, não deveriam se envergonhar da sua condição de diletantes escribas que manifestam suas idéias, atendendo a necessidade de uma fluente comunicação. *********************************************************
Há pouco recebi “Felicidade Realista”, cuja autoria era atribuída a Mário Quintana. Desconfiei do estilo apresentado e resolvi pesquisar no Google, onde descobri um portal que denunciava como sendo de Martha Medeiros o referido texto. Então alertei ao remetente esse equívoco e ele me respondeu que mais importava o conteúdo do que o autor. Quer dizer que essas mensagens estariam circulando impunemente, sem que se evite os constrangimentos a que são submetidos seus criadores, como veio ocorrer com Luiz Fernando Veríssimo ao ouvir numa cerimônia de formatura da qual era o paraninfo, um trecho apócrifo que lhe era atribuído. ******************************************************************
A jornalista Cora Rónai, em seu livro “Caiu na Rede”, no qual desmistifica os textos apócrifos, declara que é “uma completa falta de interesse pelo autor do texto: o que importa é a mensagem, não importando quem a tenha escrito... aliada à ignorância e a um senso peculiar do que seja direito autoral”. Nessas páginas, desfilam como vítimas Millôr Fernandes, Herbert Vianna, Gabriel Garcia Marques, Henfil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Clarice Lispector e Castro Alves, tendo ainda veementes depoimentos de João Ubaldo Ribeiro, Arnaldo Jabor, Martha Medeiros e Luiz Fernando Veríssimo, renegando indevidos escritos.
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Martha Medeiros, vai dai certo machismo, tem sua produção autoral confundida com Carlos Drumond de Andrade (este com o texto “Quem Não Tem Namorado”, na obra erroneamente se aponta como sendo de Artur da Távola), Mário Quintana (“Promessas Matrimoniais”), Luiz Fernando Veríssimo (“A Impontualidade do Amor” e “O Que Faz Bem à Saúde”), Roberto Freire (“As Razões que o Amor Desconhece”), Arnaldo Jabor (“Até a Rapa”), Miguel Fallabela (“A Dor Que Dói Mais”) e Pablo Neruda (“A Morte Devagar”). Afora os inúmeros apócrifos onde o Autor Desconhecido ataca sem dó nem piedade, alterando os devidos créditos. **************************************************************
Vinte anos atrás, andei buscando exaustivamente um poema atribuído a Bertold Brecht e, por acaso, numa entrevista do então vereador Antônio Hohlfeldt, tomei conhecimento de “No Caminho com Maiakovski” http://www.culturabrasil.org/caminhocomaiakovski.htm que tinha autoria de Eduardo Alves da Costa, publicado em sua obra de mesmo nome, e que ninguém acreditava ser de sua lavra como até hoje a Internet vem confundindo os incautos. Comumente venho recebendo “Desejos” ass’as’inado por Victor Hugo e que acabei descobrindo como adaptação da crônica do nosso saudoso Sérgio Jockymann, intitulada “Os Votos” http://muneo.wordpress.com/2007/12/15/os-votos-de-sergio-jockymann-a-verdadeira-versao/ e publicada na Folha da Tarde em 30 de dezembro de 1978. ***********************************************************************
Rónai, colunista do Segundo Caderno do jornal O Globo, em suas considerações de “Caiu na Rede” é muito enfática quando afirma: “O melhor serviço que se pode prestar aos autores de quem se gosta, porém, é nunca, jamais, em hipótese alguma, passar adiante textos a respeito de cuja autoria não se tenha certeza”.

7 comentários:

Agilmar Machado disse...

Meu caríssimo e festejado escritor/poeta/jornalista: já nem acompanho mais meus artigos sendo não somente transcritos SEM CRÉDITO NENHUM AO AUTOR, mas o que é pior, aproveitarem trechos apenas, extraidos desses textos, para publicarem como "curiosidades" em determinados temas, como já ocorreu com "El tango en el Brasil" (hoje rodando o mundo) e, mais recentemente, com matéria sobre Gregório Barrios, cuja filha está aqui em caa e me presenteou todo o seu acervo para elaboração de um livro e um documentário cinematográfico sobre "O rei do bolero", além de textos alusivos a Alfredo Le Pera. Todos têm trechos extraídos e publicados na internet... simplesmente como "curiosidades"... Assim, caro José Alberto, endosso palavra por palavra toda a tua revolta e, digo mais, gente com a tua fibra e dos nomes que citaste, tinham que ser clonados (por que não nascem mais por ai!!!

Academia de Letras de Crateús - ALC disse...

Meu amigo poeta das águas doces, faço minhas as oportunas palavras de Agilmar Machado “gente com a sua fibra e dos nomes que citaste, tinham que ser clonados mesmo (por que não nascem mais por ai!!!), mas citando a digna e correta fonte” Um grande abraço.
Raimundo Candido

Gilberto disse...

Caro Souza:
Acredito que essas pessoas tomam esse tipo de iniciativa porque buscam notoriedade a qualquer preço.Não suportam a sua mediocridade.

Martices disse...

Salve, caríssimo poeta...

Matéria por demais oportuna. Outro caso bastante notório é o do grande escritor Jorge Luís Borges, ao qual são atribuídos alguns poemas que certamente não possuem o seu estilo e muito menos a sua profundidade filosófica.

Parabéns por levantar, com maestria, essa bandeira.

Abraço

Martim César

Anônimo disse...

Caro Souza:
Tua preocupação, bem como de outras pessoas antenadas, se justifica plenamente. A internet é um solo fértil para que vicejem textos erroneamente atribuídos a pessoas que nada têm a ver com eles. Volta e meia, me chegam pela internet textos equivocadamente atribuídos a Martha Medeiros, Luis Fernando Veríssimo e Jorge Luis Borges. Basta que se tenha um razoável conhecimento da obra deles para se instalar em nós a dúvida sobre a veracidade da autoria a eles atribuída. Tenho sempre alertado os meus contatos que tenham parcimônia no endereçamento desses textos apócrifos. Porque isso acaba se transformando numa bola de neve. O Veríssimo já se manifestou várias vezes, ao afirmar que determinados textos a ele atribuídos, na verdade, não lhe pertencem. A internet, convenhamos, é um veículo terrível para disseminar aleivosias, inverdades. No campo da política, então (embora ela ande pelas caronas), a coisa é verdadeiramente de arrepiar. O pior é que, no mais das vezes, a internet acoberta a impunidade.
Grande abraço.
Marco

RICARDO WORTMANN disse...

Descobri este blog pesquisando o nome de meu pai.Achei excelente os teus textos.Fiquei emocionado com uma homenagem que fizeste para ele.O teu blog está ótimo e se tornou uma leitura obrigatória para mim.Estou com uma experiencia recente.Criei um blog.Estou no inicio e em pouco mais de 30 dias tenho quase 7.000 acessos
www.cornetadorw.blogspot.com
Os assuntos predominantes são o futebol e a crítica ao tudólgos da imprensa.Especialmente a algumas pessoas que entendem e falam sobre todos assuntos.Te recomendo uma cronica lá no inicio do blog - Dramas de uma festa de casamento na Sociedade Germania.Foi postado em Janeiro (vide post antigos).Se gostares do blog ficaria grato se divulgasse para os meus conhecidos em Jaguarão.A leitura do teu blog me remete ao passado e as recordações que tenho especialmente da Praça Alcides Marques.Ou melhor.Praça Alcides Marques 53.Ali meus pais moraram por 24 anos.
Um forte abraço

Anônimo disse...

José Alberto: adorei o artigo! A internet como outras ferramentas inventadas, precisa ser utilizada para a dignificação do homem, nos casos aqui elencados, do ofício do escritor. Há que se combater as pragas, na mesma proporção em que elas se alastram, para a manutenção do equilíbrio. Parabéns, amigão! Abraço da Fatima, daqui da Laguna/SC