domingo, 16 de julho de 2017

UM VARAL PARA NOSSA CARA "MECENAS" (VI)





PARA JACQUELINE

POR Lenival de Andrade 
em 15/07/2017 às 12h20





Foi num belo mês de Agosto
Que meu humilde trabalho foi ao mundo apresentado
Logo vi o resultado e fiquei emocionado
Falar bem dela falo com muito bom gosto
Para o progresso estou disposto
Sinto necessidade que ela me ensine
Pessoa muito bacana e de cultura sublime
Lançou-me numa boa na revista VARAL DO BRASIL
Assim logo minha moral subiu
Então receba de forma real e especial
Tornando tudo tão legal
Pois FIZ para você amiga Jacqueline

sábado, 15 de julho de 2017

UM VARAL PARA NOSSA CARA "MECENAS" (V)

COMENTANDO...

        Em 1976 pouco tempo após minha chegada a Florianópolis, num passe mágico entre muitos mais, fui admitida no antigo e extinto jornal A Gazeta. Comecei na função de revisora e acumulei a de repórter/redator.
Responsável por uma crônica diária criei o título “Comentando...” e nesse espaço eu ‘pintava e bordava’ os acontecimentos da antiga Florianópolis – que ainda não era Floripa.  Consequentemente comecei a participar da vida literária insipiente na pacata Capital.
Passaram-se muitos anos e a moderna Floripa cheia de prédios e aterros roubados do mar me acolheu como escritora. E, como tal, venho participando de encontros e associações literários e culturais.
Pois num desses movimentos, fiz um ‘plantão’ na Feira do Livro de Florianópolis, creio que há uns três ou quatro anos. Nessa ocasião conheci JACQUELINE. Confesso que não sabia de quem se tratava, mas aquela simpática e simples mulher carregava uma bagagem ímpar. Ali fiquei sabendo um pouco do trabalho que ela fazia com a ‘ponte’ Brasil/Suíça oportunizando aos escritores brasileiros a possibilidade de vencer distâncias com seu Varal Literário.
Creio que a simpatia entre nós duas foi recíproca e começamos a nos comunicar via Facebook. Numa de suas visitas ao Brasil tive a satisfação de reunir uns poucos escritores para recepcioná-la junto com o marido e o filho. Tivemos momentos muito agradáveis. Jacque fez um relato das atividades em Genebra e Paris e como os trabalhos que enviamos ao seu Varal foram bem recebidos.
Repentinamente, nossa querida amiga avisou que estava se retirando dessas valiosas atividades. Numa analogia, Jacqueline e a ponte Hercílio Luz “estavam fora de combate”... Mas, ainda nessa similitude: Jacque voltou e a ponte está se recuperando!!!
 Ivonita Di Concílio 
Florianópolis/2017

sexta-feira, 14 de julho de 2017

UM VARAL PARA NOSSA CARA "MECENAS" (IV)

MEU AGRADECIMENTO PARA JACQUELINE BULOS AISENMAN

Isabel  Cristina Silva Vargas


Alguns anos atrás estreei no Varal do Brasil, na Revista de número 8, revista literária virtual organizada por esta criatura incrível que saiu do Sul do Brasil para ganhar o mundo através da atividade literária própria e por sua atividade de gestora e produtora cultural, participando de feiras, organizando eventos, editando coletâneas ou antologias. 
Nas redes sociais criou um grupo com ativa participação nas atividades que propunha de criação de contos, crônicas, poemas, assim como outras formas de escrita.
Este constante encontro virtual possibilitou-me organizar várias destas atividades a fim de Jacqueline coloca-las no blog. Isso me deixava muito feliz pela sua confiança, assim como eu creio que deveriam ficar todas as outras participantes a quem ela solicitava esse apoio.
Em outra ocasião escrevi uma das orelhas do Varal Antológico.
Através das participações frequentes passamos a admirar e respeitar os trabalhos mútuos.
O encerramento das atividades do Varal do Brasil, em virtude dos problemas que acometeram Jacqueline causou profunda surpresa só ultrapassada pela preocupação com seu restabelecimento.
Tenho muito a agradecer a esta pessoa sincera, amiga, generosa que em vez de expor ao mundo sua competência e talento, unicamente, doou seu tempo para todos aqueles que chegaram até ela através do Varal.
Agora, no momento que lançou a edição zero de uma nova revista, a Veia, em proposta diferente do Varal que era gratuito, volto a agradecer por inclusão de meu trabalho nesta nova proposta literária.
A ela, mais uma vez, agradeço desejando muito sucesso nos novos caminhos a trilhar.

Sucesso!!! 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

UM VARAL PARA NOSSA CARA "MECENAS" (III)

Maria (Nilza) de Campos Lepre.
Quero deixar registrada minha gratidão a uma grande mulher brasileira: Jacqueline Bulos Aisenman.
Ela fez de sua vida uma luta de levar novos escritores e poetas brasileiros a serem lidos e apreciados em todos os recantos do mundo, onde a língua portuguesa fosse compreendida e apreciada.
Meu coração esta sangrando de tristeza com o encerramento de suas atividades frente ao Varal do Brasil revista digital criada, dirigida e elaborada por ela sem nenhuma ajuda extra.
Você sempre foi nossa maestrina frente a esta revista nos orientando e fazendo com que nunca perdêssemos o tom, fazendo com que a sua obra permanecesse sempre no tom desejado. 
Sua revista conquistou a admiração de meus amigos e familiares, que esperavam com ansiedade a saída de um novo numero. Sei como é difícil organizar e tocar para frente um projeto tão grandioso como este. Você idealizou e conseguiu através de muita luta construir uma revista que ficará registrada para sempre na memória de quem as leu.
Pode se orgulhar, pois conseguiu seu intento, muitos escritores, poetas e poetizas passaram a ser conhecidos no Brasil e no exterior graças a este seu projeto. Não sei por qual motivo vai encerrar suas atividades, mas pode contar com minha amizade para sempre. Se precisar de mim pode pedir ajuda, pois estarei sempre ao seu dispor enquanto vida eu tiver.
Foi através de sua revista que nos conhecemos, por ocasião do lançamento de um dos Varais Antológicos, em Florianópolis. Desde este dia passei a te admirar, respeitar e amar como se ama a uma irmã ou mesmo filha, pois é como te sinto em meu coração.
Tenho orgulho de ter participado por vários anos de suas revistas e antologias.
Obrigado pela oportunidade que me proporcionou.
É muito triste, mas, nos veremos por ai.
Mil beijos e que Deus a proteja e acompanhe para sempre.

Maria (Nilza) de Campos Lepre.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

UM VARAL PARA A NOSSA CARA "MECENAS" (I)

Jacqueline nos tempos de Laguna

Jacqueline, do Varal do Brasil - Uma entrevista imaginária (*) 
[ JAS & Garoeiro - 6 de julho de 2017 ]

JAS/Garoeiro – Caríssima Jacqueline, primeiramente, uma palavrinha de apresentação mesmo sendo você tão conhecida e amada por todo esse pessoal da blogosfera dos escritores “sem frescura”.

Jacqueline - Meu nome é Jacqueline Aisenman, sou brasileira de nascimento e suíça por adoção, residindo em Genebra (Suíça) há mais de vinte e cinco anos.
Sou uma apaixonada. Pela vida, pela arte, mas principalmente por papel, caneta e inspiração (Bem que hoje se pode acrescentar com certeza o computador, sua tela e seu teclado fazendo as vezes do papel e da caneta!
Desde 2006 escrevo na internet. Escrevi durante nove anos no meu blog Certas Linhas Tortas que continua no ar, mas já não está sendo atualizado, pois mudei para meu site pessoal e oficial, Coracional. Lá tenho mais de 800 artigos, entre contos, crônicas, poemas, pensamentos e etc. Lá também tenho meu novo blog. Coracional é minha residência virtual.
Nasci na cidade de Laguna, em Santa Catarina e vivi parte de minha infância no Paraná. Por todos os lugares pelos quais passei, fiz amizades que ficaram.

JAS/Garoeiro – E o Varal do Brasil?

Jacqueline - Minhas intenções com o Varal? Divulgar, mostrar, fazer desabrochar. Somos tantos a escrever e muitas vezes sequer mostramos para alguém dentro de nossa própria casa. Deixamos fluir nossas emoções, nosso olhar sobre a vida e guardamos tudo. Por medo, vergonha, baixa estima, deixamos de compartilhar com as outras pessoas nosso sonho ou simplesmente nossa maneira de ver e sentir a vida.
Pois é… Aqui está se concretizando um sonho meu. Estar junto com muitos que amam o mesmo que eu: escrever e ler. Não sou o que chamam de intelectual, nem sei exatamente o que quantifica ou qualifica as gentes para tanto. Mas com certeza sou uma “emocional”! Por isto, nem pensem em encontrar aqui o mundo muito perfeito e muito fino de uma revista literária comum.
Aqui, meus amigos, meus colegas de vida, vocês têm um varal de amor e amizade estendido completamente sem frescuras.
...

Pendurei o Varal pela primeira vez em 2009 com o objetivo de fazer “literatura sem frescuras” num mundo literário avesso à simplicidade e aos escritores “iniciantes”. Considero que fui longe, bem mais do que poderia sequer imaginar. A revista, as antologias, os concursos literários, as participações dinâmicas no Salão Internacional do Livro de Genebra, os eventos aqui na Suíça e no Brasil…. Tudo foi parte de um longo, frutuoso e feliz caminho, por onde fui encontrando pessoas que hoje são mais do que apenas pessoas conhecidas, são amigas que guardo no coração.
...

Porém, há dois meses antes de completar sete anos, o Varal do Brasil encerrou suas atividades, em 15 de setembro de 2016. Mas, com a seguinte mensagem: “Este site permanecerá no ar indefinidamente. Ficará como arquivo e como testemunho do que realizei junto a tantos escritores de tantos lugares do mundo. ”

JAS/Garoeiro – E como vai a Jacqueline de agora, depois do sonho do Varal do Brasil?

Jacqueline – Continuo escrevendo no Coracional.com. As coisas que vêm de dentro... Está bem registrado ali, meu nome é Jacqueline mas pode me chamar de poeta... Em setembro de 2016 tive um AVC, a descoberta de aneurisma e de uma insuficiência cardíaca relevante. O AVC mostrou-se regressivo e cá estou eu, recuperada... No caminho da Literatura, ando ao lado de poucos, mas destes poucos, sei o valor e reconheço o percurso realizado além de, sempre, guardar a amizade e admiração pessoal por todos eles.


(*) As “respostas” são autênticas, não imaginárias...V

segunda-feira, 3 de julho de 2017

CARLOS NEJAR: eis uma preferência do Garoeiro

Em 25 de maio último, recebi a seguinte mensagem do Poeta Garoeiro:
Segundo a Wikipédia, há uns anos atrás, Mário Quintana, Heitor Saldanha e Carlos Nejar seriam os três grandes poetas desse celeiro enorme chamado Rio Grande do Sul. Fiquei sabendo porque estava planejando uma semana em homenagem a Carlos Nejar, no Reblog do Poeta Garoeiro, em junho. Foi aí que descobri "A Hora Evarista", a coletânea de poesias de Heitor Saldanha! Grande Poeta, Grande Poesia! Por isso, antecipo ao Amigo Souza que a última semana de junho será a Semana Heitor Saldanha! Nejar, que está por aqui, ainda, poderá esperar...
Ou, não?
E agora chega às minhas mãos esta sua amostra sobre a obra de Carlos Nejar, na imagem acima reproduzida.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e a semana Heitor Saldanha (VII)

Os dois Rio Grande 
- o do Norte de JBS Garoeiro (seleção) 
e o do Sul de JAS das Águas Doces (repique) - 
acabam de estabelecer, nesta última semana, sua voluntária parceria com o fim de apresentar uma pequena mostra da obra de um dos mais importantes poetas modernistas da literatura brasileira.


Assim prefiro
Heitor Saldanha 
– A Hora Evarista – 1974 – p. 155.

Dizem os homens sábios
que a verdade começa no céu.
Eu vivo esta poesia ignorante
sem saber das virtudes do céu.
Pertenço a uma terra de vinganças
por pureza,
vingança de remorsos necessários.
Aprendi que as minas de carvão
são a concreta dimensão sem fuga.
Se eu soubesse rezar pedia a Deus
que conservasse a pureza.
Não.
Não pedirei ao Deus dos outros
que sofre gerações em um silêncio menor.
Enquanto houver injustiçados
na terra, não rezarei.
Depois,  também não rezarei.
Esta é a minha devoção:
abrir caminhos de luz
para encontrar meus irmãos.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e a semana Heitor Saldanha (VI)






Heitor Saldanha 
– A Hora Evarista – 1974 – p. 203.
 Só depois de sentir que o Belo é triste
é que se atinge a alma da Beleza.
De que vale saber se Deus existe
conhecendo a alegria da tristeza?

Em Quixote a sonhar de lança em riste
a desfazer agravos e torpezas
- a viva encarnação do Belo-triste –
existe um deus pagão por natureza.


Antes do balançar para o crescente
recebe-se o ingresso permanente
e se devolve a senha antes do tempo.

Depois, buscar a luz ventre de treva
da viva floração nunca se eleva 
que da germinação não houve exemplo.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Poeta garoeiro e sua semana Heitor Saldanha (V)

5.1   S O N E T O
        Heitor Saldanha 
(A Hora Evarista, pag. 107)


Acordo-me outra idade e me renovo.
Sou minha antiguidade que festeja.
Acordo-me no ser que desaprovo:
abisbo-me de ver sem que outro veja.

Atingido de ser, lutoflutuo
pela luta de ser que em mim resiste,
e no descontinuar me continuo
que do meu alegrar me faço triste.

Já sou a sonolência de outra espera
onde dorme a consciência que nos gera
de onde nos chega o bem mais depurado.

Distendido e liberto me imagino
escutando a linguagem do menino
que vos fala por mim do outro lado.



5.2   T E M P O - I R A - T U R A
        Heitor Saldanha 
(A Hora Evarista - 1974, pag. 17)

Reler os meus poemas
me angustia
e no entanto insisto
no dilaceramento da matéria

arado
irado
contra o vento
apertarei o silêncio
as letras
as melodias
até que chegue a expressão
do verso que necessito
ou mesmo não necessito
exploro o pulso da forma
para poder deformá-la
e passo 
sou minha ultrapassagem

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e a semana Heitor Saldanha (IV)






Heitor Saldanha – A Hora Evarista – 1974 – pp. 54/55.

Em mim esse fulgor de alucinâncias
que paralisa os contrários
e reconquista um campo de batalhas
cansei de cruzar fronteiras
com passaporte lacrado
entanto não me projeto
somo um simples apelido
num alfabeto sincrônico
que há muito foi desusado
operário de impossíveis
trabalho sobre o imprevisto
escrevi cartas anônimas
à luz de velas mortiças
e minhas correspondências
chegavam sem endereço
...
mas não andei sobre as águas
não imitei Jesus Cristo
eu sou o lado contrário
e vou passar sem ser visto
...
sim meu trajeto é de longe
fazendo um curso de espasmos
com sombras de fuzilados
caindo dentro de mim
até chegar ao teu reino 
e te cantar   liberdade

domingo, 25 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e a semana Heitor Saldanha (III)

Heitor Saldanha 
– A Hora Evarista – 1974 – p. 88.

Hoje enquanto tiver dinheiro beberei.
Depois entregarei ao garçom
meu relógio de pulso
meus carpins de nylon
meus óculos de tartaruga (que nome bonito)
minha caneta tinteiro
e continuarei bebendo
sem literatura
sem poema
sem nada.

Só.
Como se o mundo começasse agora.
Estou nesses conscientes estados de alma
em que não posso me salva
e nem salvá-la.

sábado, 24 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e sua semana Heitor Saldanha (II)


Dança
Heitor Saldanha – A Hora Evarista – 1974 – p. 80.

A lua disse à criança
                    que a flor era um pé de sol.

A lavadeira passando
                    seus alvíssimos lençóis
                    estendeu uma nuvem no espaço.

E ficou tudo
                    distante
                              distante

                                       como a lembrança da infância.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Poeta Garoeiro e sua semana Heitor Saldanha (I)


Marcha
Heitor Saldanha – A Hora Evarista – 1974 – p. 182.

Ouço um rumor de astros debandando
um marulhar de onda que vem vindo,
será a marcha do tempo penetrando
ou será a Tua voz que estou sentindo?

São matilhas de cães que vão ladrando
ou debandar de sombras se esvaindo?
É um astro no mar que está sangrando
ou será o passo Teu que vem subindo?

Senhor,   não me abandones no caminho.
Tu me deste a beber de um novo vinho
então dá-me mais luz se é  que mereço.

E se tanto merece um teu eleito
Senhor,   manda que cresça no meu peito 
este glorioso mal de que padeço.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Da homenagem ao poeta gaúcho Heitor Saldanha

Cedemos nosso espaço para repicar parte da Apresentação do Especial Heitor Saldanha com o depoimento do Poeta Garoeiro, de Natal-RN, sobre uma das obras deste ilustre cruzaltense

3. Hora Evarista – Especulações...

Sob o título: “A Hora Evarista” a Editora Movimento, de Carlos Appel, lançou, em 1974, poemas de Heitor Saldanha, inclusive, os de: “A Nuvem e a Espera”, “As Galerias Escuras” e “A Outra Viagem”. Ainda que esse livro trouxesse refinados comentários de Manoel Sarmento Barata, Raymundo Faoro e José Louzeiro, nada é mencionado a respeito do título, onde está esse adjetivo singular, “evarista”, para qualificar aquela “hora” do poeta. Descartamos eventual referência que viesse da onomástica, pela antroponímia de “Evaristo”, nome próprio de origem latina.
Invenção, neologismo, aliteração, transliteração para abonar ou desabonar palavras, são atitudes constantes na criação poética e na literatura em geral. Nosso poeta poderia simplesmente ter achado bonito, sozinho em sua mesa, ou conversando com amigos, “A Hora Evarista”, que não é “A Hora H”, nem “A Última Hora”, mas é uma hora decisiva.
Também pode ser que ele tivesse lido o epíteto em algum tempo e lugar e por gosto e livre escolha adotado o enigma para título da compilação.
Nos poemas em que a expressão aparece um significado preciso não ganha abonação pela moldagem metafórica que a permeia.
As pistas rabiscadas pelo Poeta Heitor Saldanha, autor de "A Hora Evarista", são:

1ª) - página nº 9 - (título): a hora evarista (em letras minúsculas); com a epígrafe:

uns vivem crono-metrados
eu vivo fora de hora
paciência
por agora
quero um oco de céu
pra cabidar meu chapéu

2ª) -  página nº 10 - (título): A HORA EVARISTA (caixa alta), seguido de:

chega uma altura na vida
em que o universo suspira sua síntese
então passamos de cabeça baixa
era tão longe e não se sabia
que tudo é perto pra viver poesia

3ª) – página nº 11 – poema: "Dia dos Mortos":

tira isso daí
recua essas mesas pardas
pra não me perturbar em alucínio
apague os refletores que essa água mareia
estão desembarcando os passageiros
nesse campo de pouso disparado
é a hora evarista no tambor dos revólveres
por isso não há estampido
cuidado
sai daí
...

Pensando nisso, é possível que uma "hora evarista" seja, ao contrário da hora cronometrada, uma "hora de se viver fora de hora", "numa certa altura da vida", "com a síntese do universo ali, sendo suspirada"...
Ela poderia vir, por aproximação, do Latim, onde "sempre" admite, entre outras abonações: "semper", "umquam", "ever" e "in perpetuum".
Ora, considerando "ever" - também, como o mantém a Língua Inglesa - há de haver uma forma declinativa de "ever" para "evaris", acabando por ancorar o adjetivo "evarista", para qualificar uma determinada e singularíssima hora que seria para sempre, com duração diferente da "hora cronometrada", muito diferente:

Hora evarista = aquela que a gente quer que nunca acabe, que dure para sempre...

Ou, não?

Poeta Garoeiro – Natal, RN, 21 de junho de 2017.


Programação: de 22 de junho a 29 de junho de 2017, o Reblog do Poeta Garoeiro homenageia o Poeta Heitor Saldanha, postando, dia a dia, um poema escolhido, dentre o manancial apuradíssimo que ele criou...

domingo, 4 de junho de 2017

* A ULTRA SENSIBILIDADE DE LUIZ CORONEL *



O homem no desemprego
é um homem amordaçado.
Esconde grito contido,
Por isso parece calado.

O homem no desemprego
rumina áspero o ódio.
O tempo boceja inútil 
sem agenda ou relógios.

O homem no desemprego
não tem passagens ou malas.
Move-se num vai e vem
qual uma fera na jaula.

O homem no desemprego
parece perdido no espaço.
Manearam suas pernas,
imobilizaram seus braços.

O homem no desemprego
é um homem no exílio.
Não tem idioma nem pátria.
É um trem fora dos trilhos.

O homem no desemprego
é um náufrago na tábua.
É um peixe asfixiado
num turvo aquário de mágoas.

Ao homem no desemprego
congelaram sua imagem.
O tempo rola seu filme
mas ele ficou à margem.

Ao homem no desemprego
o alambique destila
a salvação pelos copos
e o triste roteiro das filas.

Publicado em 17/maio/2017 no Caderno de Sábado do Correio do Povo (POA). 





quinta-feira, 9 de março de 2017

GENTILEZA DE AÇOUGUEIRO - /S. Costa Franco/

Na minha idade há grande perigo de me tornar repetitivo, contando histórias que já foram contadas. Especialmente quando se fez colunismo desde o outro milênio, ou, mais precisamente desde o ano de 1969. Confio em que o meu estoque de “causos” e anedotas seja bastante grande, para resistir a esses 48 anos de memórias registradas na imprensa, desde a “Voz da Serra", de Erechim, passando pelo velho Correio do Povo e a Zero Hora, de Porto Alegre, onde assinei umas cinco mil e duzentas crônicas ou comentários opinativos, até 1989, quando deixei de fazer estatísticas. Depois disso, aposentado, continuei escrevendo eventualmente, para diversos periódicos, em geral sem qualquer remuneração, mas ainda assim com o ânimo incontido de me comunicar com o público.
Vocês dirão que estou com a pauta esgotada, sem possibilidade de contar qualquer novidade. Mas como o      texto do meu livro de memórias foi encerrado em 2006, já sobram mais de dez anos sem a narrativa de vantagens ou fracassos, nem de observações sobre os outros viventes, que são fonte inesgotável de inspiração.
Minha pauta de agora tende a ser didática, atendendo às experiências de octogenário. Observo hoje as práticas civilizadas do comércio de varejo, onde a clientela é atendida segundo corretas prioridades, assegurada a preferência dos idosos e deficientes físicos, em geral mediante a prévia distribuição de senhas numeradas E me lembrei do tempo em que a desordem imperava, tanto nos guichês das diversões públicas quanto no balcão das repartições ou das casas de varejo. Pelo que me lembro, foram as dificuldades de abastecimento durante a 2ª. guerra mundial, que introduziram o saudável hábito das filas, então chamadas de “bichas”. Mas antes que a experiência das filas fosse aceita e assimilada pelo público, houve um tempo em que predominava quem reclamasse mais alto ou quem desfrutasse das simpatias do atendente.
É deste período o episódio que testemunhei, numa das cidades onde vivi, no açougue do Beto Cunha (o nome é fictício para não atrair eventualmente a ira do falecido). Com a freguesia se acotovelando junto ao balcão, o Beto era sozinho para cortar, pesar, e embrulhar os pesos de carne, além de receber o respectivo preço. Compreende-se que sofresse e se exasperasse. Foi então que assisti à divertida cena. A freguesa apressada para ir cozinhar o almoço, enquanto não era atendida, repetiu mais de uma vez o seu pedido, que, salvo engano, era de 1 quilo de paleta, sem osso. Com vinte anos de pesado serviço entre carnes e fressuras, ganchos, facas, chairas e balanças, o Beto Cunha não seria exatamente um gentleman com a freguesia, e muito menos com os impacientes. Depois de mais um pedido da freguesa, ele deu um corte fundo na paleta bovina e largou na balança o enorme pedaço, que devia regular uns 3 quilos.
- Tá bom assim, vizinha?
Assustada, a mulher contestou:
- Mas, Seu Beto, eu só quero l quilo.
- Ué, pediu três vezes!
Com a distribuição de senhas à freguesia, já não acontecem mais essas cenas caricatas.